Blindness


Ontem vi, através do olhar de outros, o meu livro predilecto estampado na tela. “Blindness”. Na leitura de um livro, na escuta atenta de uma história que nos contam, a imagem que criamos, a sua representação vai até onde a nossa imaginação quiser ir e até onde nos permitimos nela nos perder. Mas quando a imagem nos é dada no seu formato integral, onde a imaginação tem um papel muito reduzido e apenas os nossos olhos são o canal de ligação entre o exterior e o nosso consciente, aí cabe-nos olhar com olhos de ver. Aconteceu-me isso ontem.
Ver um filme baseado num livro já lido por nós cria sempre um expectativa elevada, e normalmente sucede o filme ficar aquém. Ontem não. Pareceu-me ser um retrato fiel ao livro, claro está, feito aos olhos do seu realizador.

Saí da sala de cinema ainda com o mundo do imaginário entrelaçado com o mundo real. A imagem choca, coloca-nos perante os factos como eles são e não perante a nossa vivência. Senti naúseas, angustia e tentei comparar a sensação de ontem àquela que vivi enquanto lia o livro. Realmente não tem comparação. Na leitura de um livro é a nossa mente, a nossa visão, o consciente e inconsciente formado em nós que nos eleva para mundos imaginários. E por segurança, por auto-preservação o nosso corpo e espirito erguem barreiras que nos impedem de aceder ao campo do imaginário que nos fere, nos magoa e nos maltrata. A visualização de um filme, de uma cena na rua consegue transpor essa barreira e chegar até recantos da nossa alma que julgavamos não alcançar, que cria uma sensação de mal estar. Ficamos desprotegidos, vulneráveis e a não ser que tapemos os olhos ou optemos por uma postura de ver e não olhar, a verdade lacera e faz-nos questionar sobre o que está muitas vezes à nossa frente não queremos ver.

4 comentários:

Johnny disse...

O predilecto não era outro?

Resta saber se essa crueza do conhecimento que descobriste na visão a que te obrigaram é melhor ou pior do que a suave ignorância a que a sensibilidade obriga. É uma resposta que fica para cada um.

Daqui fica só um bom texto e uma boa crítica de cinema.

Anónimo disse...

Eu respondo que prefiro a ignorância e a sua sensibilidade para poder eu própria criar o que a rodeia de acordo com os meus sentidos. No entanto, aconselho todos aqueles que se julgam com alguma maturidade , não so a verem o filme mas a reflectirem sobre ele.

Anónimo disse...

Eu vi cerca de 30 minutos do filme em questão e não li o livro. Mas desses 30 minutos deu para enterder algumas coisas; as pessoas tendem a aproveitar-se de pessoas "cegas" não respeitando a condição do outro, só vendo o proveito que eles ganham. Podemos transpor isso da ficção para a realidade os mais poderosos tendem a aproveitar-se dos mais "fracos" para conseguirem os seus objectivos.
A solução para isso é uma boa pergunta para todos nós reflectirmos..........
Vou tentar ver o filme todo, já que gostas-te e sendo tu uma pessoa tão exigente.......

Anónimo disse...

Na verdade, Vitor, o enredo gira entre pessoas na mesma condição de cegos, e como em qualquer grupo social, também ali se estabelece, ou melhor, se impõe, uma hierarquia. A ideia do filme/livro, a meu ver, é fazer notar que muitas vezes vemos sem ver. MAs depois me dirás.